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Nu descontexto

Neste tão vasto espaço recomeço as minhas histórias, as imagens e mensagens que passam por mim. Desejo partilhar este blog com quem quiser dispensar um pouco do seu tempo para amar comigo tudo.

Nu descontexto

Neste tão vasto espaço recomeço as minhas histórias, as imagens e mensagens que passam por mim. Desejo partilhar este blog com quem quiser dispensar um pouco do seu tempo para amar comigo tudo.

E as folhas continuavam a cair...

E as folhas caiam. Já muito tarde, caiam. Estávamos no 19º dia do ano 2009 e como a lei dita deveriam ter caído no Outono do ano passado, mas não sei quem a inventou. Eram tão teimosas que decerto quiseram assistir a todo o frenezim da passagem do ano ali em cima. Na poltrona feita de ramos sustentados por uma sumptuosa árvore qualquer no Parque Eduardo VII. O mesmo sítio onde pela noite se encontravam amantes e prostitutas seminuas à procura de uns trocos. Sabe-se lá para quê...

E eu estava ali sentada a vê-las cair. Enquanto eu própria caíra. Tinha um romance recente que mais parecia uma tragédia de encontros e desencontros e lugares comuns. Estava exausta, cansada, até mesmo frustrada com aquela minha vida.

Que teria ele de tão fascinante que me prendia ao telefone horas a fio á espera de uma chamada, ou um pedido para que voltasse? 

Era uma miúda estúpida presa a uma ilusão de amor. E quanto mais me apercebia disso mais parecia que as folhas caiam. Visto bem assemelhava-se a uma canção. Ora uma, ora outra, tombavam musicalmente. E eu chorava e depois ria e depois chorava.

Que vida era aquela e porque é que as folhas tinham de cair logo naquele dia? Odiava Deus, culpava-o pelo meu amoroso desgosto. Sim, não desgosto amoroso pois esta ruptura sabia a marshmallows. Era tão gentil a forma como me percorria o corpo para que a sentisse. O meu corpo estava gelado de me encontrar estática a escutar esta partitura da natureza.

Já não me recordo bem porque tinhamos rompido, decerto que fora mais uma minúscula e insignificante ocorrência. Já nem a voz dele me recordo. Só sei que esses tempos, em que as folhas caíam, eram tempos difíceis. Em que questionava todo o universo. Porque me pusera naquela situação, como chegara ali. Não era assim que queria estar. Desejava contrariar a fria meteorologia e saciar-me com a beleza das horas. Queria aproveitar os meus 18 anos e sair para o Bairro Alto nua, sem qualquer pudor. Dançar, pular, berrar, como uma cabra qualquer. Mas não era o meu género.

Eu preferia sentir o lado frio do romance. O lado obscuro do amor, que os romancistas tanto fantasiam nos seus livros. A verdade é que gostava daquilo. Daquele sabor amargo na boca, do arrepio dos meus pelos que cobrem o meu braço, do quebrar dos meus raciocínios lógicos. Eu amava aquela dor. Fazia-me sentir parte de uma história maior. 

E as folhas continuavam a cair.

 

 

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