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Nu descontexto

Neste tão vasto espaço recomeço as minhas histórias, as imagens e mensagens que passam por mim. Desejo partilhar este blog com quem quiser dispensar um pouco do seu tempo para amar comigo tudo.

Nu descontexto

Neste tão vasto espaço recomeço as minhas histórias, as imagens e mensagens que passam por mim. Desejo partilhar este blog com quem quiser dispensar um pouco do seu tempo para amar comigo tudo.

Ela

Era musical o seu andar. Como se a calçada fosse o teclado de um piano e ela, subtilmente, tocasse em cada tecla... Tenho saudades dela.

O seu sorriso sentado na primeira cadeira da sala de aula... Também ele melódico, com um roncar ao rir muito particular. Os dentes desalinhados brilhavam e conferiam-lhe um ar sensual. Não era linda, muito menos perfeita, era antes fascinante. Cada pedaço do seu corpo falava com quem dispensasse parte do seu tempo a ouvi-lo. Era tão comunicativo como convidativo.

Muitos a amaram, tantas a odiaram. Fosse pelo ar desajeitado ou mesmo elegante em simultâneo. Era fascinante e indescrítivel. 

Gabava-se, sem que a ouvissem, de conquistar o mundo sem grande esforço. Mas eu sabia, no meu íntimo, o quanto se esforçava.

Como tenho saudades dela... Do esvoaçar dos seus caracóis, ora vermelhos, outro dia pretos ainda outro, castanhos. Mudava de cor quase como se sentia.

As suas mãos pequenas e infantis não faziam jus à sua beleza. Não que fossem feias, mas eram tão vulgares que não lhe cabiam no conjunto. Um dia contou-me o que lhe tinham dito que o que mais apreciavam nela era precisamente as mãos. Eu ri e ela ficou tão ofendida!

Tenho saudades da sua voz. Como cantava mal no duche! Eu ouvia-a enquanto esperava na sala, fingindo não a ouvir. Tudo para que ela não se envergonhasse.

Enfim, há tanto que me faz falta nela. Não sei para onde foi. Procurei-a em todos os cantos da nossa cidade. Há quem diga que fugiu por amor e se perdeu. As invejosas riem e tentam ocupar o seu lugar mas ficou em mim um vazio tão grande que nunca mais consegui preencher. Não há cimento que componha o buraco. Nada é suficiente.

Ela era suficiente, era tudo. Ou muito, para mim. Éramos a mesma.

E assim foi um dia embora, não deixou recado e partiu. E eu tenho tantas saudades.